Esopo, Liberdade e
Esperança
Paiva
Netto
Fui
aluno do Pedro II, o antigo Colégio-Padrão, no Rio de Janeiro. Boas recordações
guardo dos mestres Homero Dornelas,
assessor do genial Heitor Villa-Lobos;
Honório Silvestre; José Jorge; Newton de Barros; Pompílio
da Hora; Sá Roriz; Farina; Choeri; Sebastião Lobo; José Marques Leite; Fernando Segismundo, ex-presidente da
Associação Brasileira de Imprensa, a nossa ABI; e outras notabilidades
nacionais.
Lá
estudávamos as páginas de Esopo, Fedro, La Fontaine…
Fábulas,
todos sabem, são narrativas em que os animais falam, acertam ou se equivocam,
possuem sabedoria ou empáfia. Enfim, singularizam os homens com as suas
qualidades e defeitos. Esopo, um cativo grego na ilha de Samos, viveu há mais
de 2.500 anos e era campeão em contar essas historinhas, que sempre nos
convidam a refletir. Uma delas é:
O cão e
o lobo
Vinha
um cão por uma estrada. De súbito, deu de frente com um lobo, que lhe disse:
—
Amigo, estás com uma excelente aparência! Forte, lépido, feliz. Sinto até
inveja de ti…
— É
mesmo?! Faze então igual a mim. Consegue um dono bondoso. E terás alimento nas
horas certas e serás bem-cuidado. Meu único serviço é, se aparecerem
assaltantes, latir à noite. Vem, pois, comigo e ele te dará semelhante
tratamento.
O lobo
considerou a proposta muito boa e foi acompanhando o cão no caminho de casa.
Até que, a um dado instante, um fato despertou a sua curiosidade.
— Que é
isso pendurado em teu pescoço? Estás machucado?
—
Bem... — respondeu-lhe o cão — é por causa da coleira.
— Quê?!
— espantou-se o lobo…
— De
dia, meu senhor me prende com ela. Não quer que eu apavore as pessoas que o
visitam.
Ouvindo
isso, o lobo não quis mais conversa e abandonou o cão no meio do trajeto,
todavia não sem antes lhe dizer:
—
Amigo, esquece tudo, porque não te seguirei mais. Acho melhor viver liberto do
que na tua aparente abastança.
Moral
da história e a lição de Jesus
Não há
ouro suficiente que valha a liberdade. E, assim, o velho filósofo da Hélade,
que era mentalmente livre, embora padecesse a ignomínia da escravidão,
legou-nos, entre outros, esse grande preceito. Contam que o seu senhor,
espantado com tamanho saber, lhe deu carta de alforria.
O
ensinamento de Jesus é superior ao
do fabulista. Encontra-se no Evangelho, segundo João, 8:32: “Conhecereis a
Verdade (de Deus), e a Verdade (de Deus) vos libertará”. Eis a diferença —
a verdade dos homens, em geral, costuma deixá-los malogrados, porque às vezes é
apenas Razão, que pode variar conforme os mais diversos fatores, incluídos os
de longitude e latitude, apesar da globalização infrene. A de Deus, porquanto
Razão embasada na Justiça e firmemente no Amor, por conseguinte distante de
fanatismos ou convicções pétreas, eleva-os ao esclarecimento maior, até nas
dúvidas mais recônditas, premiando-os, quando pacientes e pertinazes, com a
emancipação que não os surpreenderá, adiante, com as mais tristes frustrações.
Isso ocorreu com célebres pensadores que viram suas certezas abaladas, ou mesmo
derruídas, com o estremecimento de ideologias brilhantes, porém pouco eficazes.
Entretanto, como esclareceu Lavoisier
(1743-1794): “Na Natureza nada se perde,
nada se cria, tudo se transforma”. Ninguém é culpado, sendo crente ou ateu,
por querer, em todos os sentidos, o melhor para o povo.
José de Paiva Netto — Jornalista, radialista e
escritor.
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